Dmitry Medvedev, Presidente da Federação da Rússia.
Em poucos meses a Rússia entrará em uma nova década do Século XXI.
É claro que marcas de tempo importantes e datas significativas são mais simbólicas do que práticas, mas elas nos dão pretexto para refletir sobre o passado, avaliar o presente, e pensar sobre o futuro. Pensar sobre o que espera cada um de nós, nossas crianças, nosso País.
Primeiro vamos responder as questões muito simples, porém muito sérias: Deve uma economia primitiva embasada em matérias primas e corrupção endêmica nos acompanhar rumo ao futuro? Devemos manter o hábito inveterado de esperar do estado, das nações estrangeiras, ou algum tipo de doutrina, ou alguém ou alguma coisa – que não sejam nós mesmos – solução dos nossos problemas? E se existir para a Rússia sobrecarregada dessas enfermidades um caminho próprio e autêntico rumo ao futuro?
No próximo ano vamos celebrar o sexagésimo quinto aniversário da Grande Guerra Pátria. Este aniversário faz nos lembrar que nosso presente, era o futuro para os heróis que conquistaram nossa liberdade. E que, o povo que venceu um cruel e violento inimigo naqueles dias deverá também vencer a corrupção e o atraso nos dias atuais.Para tornar nosso país moderno e próspero.
Sendo da geração contemporânea do Povo Russo, nós recebemos uma herança gigantesca. Herança merecida através de duras lutas conquistas, através dos esforços persistentes de nossos predecessores, muitas vezes por custo das duras provações e sacrifícios realmente terriveis. Nós temos um território imenso, quantidades enormes de matérias primas, um potencial industrial consideravel, uma lista impressionante de grandes conquistas da ciência, tecnologia, educação e arte, uma história gloriosa dos nossos exércitos, da nossa marinha, temos armas nucleares. A Rússia tem prestígio duma potência que desempenhou um papel signuficativo e em alguns periodos determinente nos acontecimentos de proporções históricas.
Como deveríamos administrar essa herança, como ampliá-la? Como será o futuro da Rússia para o meu filho, para as crianças e netos de nossos cidadãos? Qual será o lugar da Rússia e assim, o lugar de nossos descendentes e futuras gerações em meio as outras nações no mercado de trabalho global, no sistema de relações internacionais e cultura global? Que devemos fazer para constantemente melhorar a qualidade de vida dos cidadãos russos hoje e no futuro? Permitir que nossa sociedade torne-se mais rica, mais livre, mais humana e mais atrativa? De forma que a sociedade Russa possa oferecer à aqueles que desejam uma melhor educação, um trabalho interessante, um bom salário e um ambiente confortável para sua vida pessoal e atividade criativa.
Eu tenho as respostas para estas questões. E antes que eu me ocupe com elas gostaria de dar avaliação à situação atual.
A crise econômica global mostrou que estamos longe de estado ideal. Vinte anos de mudanças tumultuosas não pouparam nosso país de sua dependência humilhante das matérias primas. Nossa economia atual herdou um grande vício da economia soviética: ela ignora as necessidades das pessoas. Com poucas exceções os negócios domésticos não logram inventar nem criar coisas e tecnologia necessária que as pessoas precisam. Vendemos coisas que nós não produzimos; matérias primas cruas ou bens importados. Produtos acabados, produzidos na Rússia na sua maioria são até agora de muito baixa competitividade.
Por isso durante a crise contemporânea, a produção caiu tanto, mais que em outras economias. Isso também explica uma excessiva volatilidade no mercado de ações. Tudo isso prova que nós não fizemos tudo que nós deveríamos ter feito nos anos anteriores. E muito não foi feito corretamente.
A eficiência energética e a produtividade da maioria de nossos negócios ainda permanecem vergonhosamente baixas, mas isso não é a pior parte. O problema é que parece que os proprietários, diretores, engenheiros chefes e servidores públicos não estão muito preocupados com isso. O resultado é que francamente, a influencia da Rússia nos processos econômicos globais não é tão grande como gostaríamos que fosse. É claro, que na era da globalização esta influencia - de qualquer nação - não pode ser ilimitada. Isso seria prejudicial. Mas nosso país deve ter capacidades substanciais,em função do papel histórico da Rússia no cenário internacional.
Como um todo, instituições democráticas tem sido fundadas e estabilizadas, mas a qualidade de suas atuações, ainda estão muito distantes do ideal. A sociedade civil ainda é fraca, os índices de auto-organização e auto-gestão são baixos.
Todos os anos a nossa população deminui. Alcoolismo, tabagismo, acidentes de trânsito, deficiência no acesso a tecnologias médicas modernas e problemas ambientais provocam a perda de milhões de vidas. E o aumento na taxa de natalidade ainda não foi capaz de compensar o nosso declínio populacional.
Nós conseguimos juntar todo o nosso país e impedir tendências centrífugas. Mas muitos problemas ainda permanecem, incluindo os mais agudos. Ataques terroristas contra a Rússia continuam. Residentes das repúblicas no Cáucaso do Norte ainda não conhecem a paz. Militares, pessoal dos órgão de segurança pública, servidores públicos e municipais e população civil estão morrendo. É claro que estes crimes são cometidos com apoio de grupos criminosos internacionais. Mas vamos reconhecer que a situação não estaria tão critica se o desenvolvimento sócio-econômico na região do sul da Rússia fosse mais viável.
Para concluir: uma economia ineficiente, uma esfera social semi-soviética, democracia frágil, tendências demográficas negativas e o Cáucaso instável, representam grandes problemas até mesmo para um país como a Rússia.
É claro que não precisamos exagerar. Muito tem sido feito, a Rússia está trabalhando. Não é mais aquele meio estado meio paralisado como estava uma década atrás. Todos os sistemas sociais estão funcionando. Mas isto ainda não é suficiente. Além de tudo, estes sistemas apenas propagam o modelo atual mas não o desenvolvem. Eles não podem mudar os modos de vida atuais e por isso os maus hábitos permanecem.
Alcançar liderança contando com mercados de petróleo e gás é impossível. É necessáario entender e comprender a complexidade de nossos problemas. Devemos discuti-los francamente para podermos agir. Afinal, nem as transações nas bolsas das “commodities” devem determinar o destino da Rússia; mas a nossa própria visão de nos mesmos, da nossa história e do nosso futuro, o nosso intelecto, a nossa honesta auto-estima avaliação, força, dignidade e o espirito empreendedor.
Apresentando cinco prioridades para o desenvolvimento tecnológico, sugirindo as medidas específicas para a modernização do sistema político, assim como medidas para fortalecer o der judiciário e combater a corrupção, eu estou partindo da minha visão do futuro da Rússia. E para o bem desse futuro, acho necessário liberar nosso país de persistentes doenças sociais que inibem sua energia criativa e restringem o progresso comum.
Estas doenças incluem:
1 – O atraso econômico secular, o hábito de depender das exportações de matérias primas brutas, que constui uma simples troca por produtos acabados. Pedro o Grande, os últimos czares e os bolcheviques, todos criaram – e não sem sucesso – elementos dum sistema inovador. Mas o preço de seu sucesso foi muito alto. Via de regra, era feito através de imensos esforços, no limite das capacidades da máquina do Estado Totalitário.
2 – A corrupção secular que tem debilitado a Rússia desde tempos remotos. Até hoje esta corrosão deve-se a excessiva presença do Estado em muitas áreas significantes da economia e atividades sociais. Mas o problema não é somente no excesso do Estado, o mundo de negócios também não é ideal. Muitos empressários não se procupam em encontrar inventores talentosos, introduzindo tecnologias únicas, criando e comercializando novos produtos; ao contrario ocupam-se em subornar funcionários públicos com o fim de controlar o “fluxo da redistribuição” da propriedade.
3 – As atitudes paternalistas generalizadas em nossa sociedade. A convicção em que todos os problemas devem ser resolvidos pelo estado, ou outro alguém, mas nunca cada um no seu lugar próprio. O desejo de construir uma carreira através da conquista, alcançar o sucesso pessoal passo a passo não consta nos nossos hábitos nacionais. Isto se reflete na falta de iniciativas, na falta de novas idéias, nos problemas não resolvidos, na baixa qualidade nos debates públicos, incluindo a critica. A concórdia social e apoio publico são geralmente expressos pelo silencio. Objeções são com freqüência muito emocionais, agressivas mas ao mesmo tempo superficiais e irresponsáveis. Bem, mas este não é o primeiro século em que a Rússia teve que confrontar-se que esses fenômenos.
As pessoas dizem que nós não podemos curar completamente enfermidades sociais crônicas. Estas tradições são inabalaveis e a História tende a se repetir. Mas há tempos a servidão e o analfabetismo pareciam insuperáveis... Mas nós logramos derrotá-los.
É claro que as tradições tem uma considerável influência. Mas ainda assim elas podem sofrer mudanças para ajustarem-se a novas eras. Algumas simplesmente desaparecem, e nem todas elas são úteis. Para mim somente valores inquestionáveis que precisam ser preservados, devem ser considerados verdadeiras tradições. Elas incluem paz na interação étnica e religiosa, mérito militare, fidelidade ao dever pessoal, hospitalidade e simpatia, inerentes ao nosso povo. Por outro lado, suborno, roubo, preguiça espiritual e intelectual, alcoolismo são vícios que ofendem nossas tradições. Devemos nos livrar deles com o uso de nossa mais profunda determinação.
É claro que a Rússia de hoje não esta copiando o seu passado. Nossa atualidade é realmente nova. E é nova não somente porque está se movendo adiante como o Tempo, mas porque abrem-se para nosso país e para cada um de nós as grandes oportunidades. Oportunidades estas que não existiam há vinte, trinta, ou bem claro cem ou trezentos anos.
As conquistas impressionantes de dois grande processos de modernização que atravessamos em nossa história - aquele de Pedro o Grande - durante o Império - e o Soviético - foram pagas pela ruína, humilhação e a morte de milhões de nossos cidadãos. Não nos cabe julgar nossos predecessores. Mas devemos reconhecer que a preservação da vida humana, por assim dito, não era uma das prioridade dos governos naqueles tempos. Infelizmente isso é um fato. Hoje é a primeira vez na nossa história que temos a chance de provar a nós mesmos e ao mundo que a Rússia pode se desenvolver no caminho democrático. Que a transição para a próxima e mais alta fase de civilização é possível. E isso será alcançado através de métodos não violentos. Não pela coerção, mas pela persuasão. Não pela supressão, mas ao contrário, pelo desenvolvimento do potencial criativo de cada individuo. Não pela intimidação, mas pelo interesse. Não pela confrontação, mas pela harmonização de interesses entre o individuo, a sociedade e o estado.
Nos realmente vivemos um tempo único. Temos a chance de construir uma nova, livre, próspera e forte Rússia. Como Presidente, sinto-me obrigado a fazer tudo que esteja ao meu alcance para assegurar que aproveitaremos bem esta oportunidade.
Nas próximas décadas a Rússia deverá tornar-se num país cuja prosperidade é assegurada não pelas “commodities” mas pelo seu capital intelectual: pela chamada economia inteligente, capaz de criar o conhecimento único, exportando novas tecnologias e produtos inovadores.
Recentemente identifiquei cinco vetores estratégicos para a modernização econômica de nosso país. Primeiro, nós nos tornaremos uma nação líder pela eficiência de produzir, transportar e usar a energia. Nós desenvolveremos novos combustíveis para uso doméstico e também para os mercados internacionais. Segundo, devemos manter e aumentar a qualidade das tecnológias nucleares. Terceiro, os técnicos russos contiunuarão melhorando a tecnologia da informação e fortemente influenciarão o desenvolvimento de redes públicas globais de dados, usando supercomputadores e outros equipamentos necessários. Quarto, nós desenvolveremos nossa infra-estrutura terrestre e espacial para a transferência de todos os tipos de informações; nossos satélites estarão hábeis a observar todo o planeta, ajudar nossos cidadãos e os povos de todas as nações a se comunicarem, viajarem, engajarem-se em pesquisa, produção agricola e indústrial. Quinto, a Rússia terá uma posição de liderança na produção de equipamentos médicos, ferramentas sofisticadas de diagnóstico, medicamentos para o tratamento de doenças cardiovasculares, virais, neurológicas e câncer.
De maneira que ao seguirmos estas cinco estratégias de sucesso na esfera de alta tecnologia, nós também nos ocuparemos com o desenvolvimento de nossas mais importantes indústrias tradicionais, e antes de tudo com o complexo agro-industrial. Cada terceiro de nos vive no campo. A disponibilidade de modernos serviços sociais para os residentes rurais, aumento dos seus salários, melhoramento das suas condições de trabalho e do seu cotidiano sempre constituirão a nossa prioridade.
É claro que a Rússia será bem armada. O suficiente para que ninguem puder pensar em ameaçar nós e os nossos aliados.
Estas metas são realistas. As metas que nos propomos alcançar são difíceis mas não são intangíveis. Nós já estamos desenvolendo os planos detalhados, para passo a passo nos movermos adiante nessas áreas. Vamos encorajar e promover a criatividade científica e tecnológica. Antes de tudo vamos apoiar jovens cientistas e inventores. O sistema de ensino secundário e superior prepararão um número suficiente de especialistas para indústrias promissoras. Instituições acadêmicas concentrarão maiores esforços na implementação de projetos inovadores. Legisladores tomarão todas as decisões para assegurar apoio para um espírito de inovação em todas as esferas da vida pública, criando um mercado de ideias inovadoras, invenções, descobertas, e das novas tecnologias. Empresas públicas e privadas receberão todo apoio em todos os setores para criar uma demanda por produtos inovadores. Para as companhias estrangeiras e organizações de pesquisa serão oferecidas as mais favoráveis condições para estabelecer centros de criação, de design e pesquisa em território russo. Vamos contratar os melhores cientistas e engenheiros através do mundo. E o mais importante, vamos explicar aos nossos jovens que a vantagem mais importante é ter o conhecimento que os outros não tem, a superioridade intelectual, a habilidade de criar coisas que as pessoas necessitam. Como Pushkin escreveu: “Existe uma coragem maior: a coragem da invenção, da criação, onde um plano extensivo é tomado pela idéia criativa”. Inventores, inovadores, pesquisadores, professores, empreendedores, que introduzam novas tecnologias, se tornarão os mais respeitados indivíduos na sociedade. E a sociedade lhes dará tudo que necessitam para serem produtivos.
Óbvio que uma economia inovadora não pode ser implementada de vez. Ela é parte de uma cultura baseada em valores
humanísticos, em nossos esforços para transformar o mundo e garantir uma melhor qualidade de vida, libertar os
indivíduos da pobreza, doenças, medo e injustiça. Pessoas talentosas que querem a renovação, pessoas que podem criar
novas e melhores coisas não estarão aqui vindas de outros planetas. Elas já estão aqui entre nós. E isto está
claramente demonstrado nos resultados das competições intelectuais internacionais; o fato que invenções “made in
Rússia” são patenteadas no exterior; e pelo fato de que nossos melhores especialistas são literalmente caçados pelas
maiores companhias e universidades do mundo. Nós – governo, sociedade, e a unidade familiar – devemos aprender a
encontrar, nutrir, educar e preservar destas pessoas.
Eu também penso que desenvolvimento tecnológico é uma prioridade publica e desafio político, porque progresso tecnológico e científico são inseparáveis do progresso dos sistemas políticos. Profissionais acreditam que a democracia tem sua origem na Grécia antiga, mas naqueles dias não havia uma democracia extensiva. Liberdade era privilegio de uma seleta minoria. Democracia plena que estabeleceu sufrágio universal e garantias legais para a igualdade de todos os cidadãos ante a lei - esta chamada democracia para todos emergiu relativamente recentemente, há 80 a 100 anos. A Democracia instaluo-se em massa não antes de terem começado a produção em massa dos mais necessários bens e serviços. Quando o grau de desenvolvimento tecnológico da civilização ocidental tornou possível ter acesso àos bens basicos: a educação, saúde e informação. Toda nova invenção que melhore nossa qualidade de vida nos provém também de um grau adicional de liberdade. Torna nossa condição existencial mais confortável e nossas relações sociais mais justas. Quanto mais inteligente, esperta e eficiente for nossa economia, maior será o bem estar de nossos cidadãos, e nosso sistema político e a sociedade como um todo também serão mais livres , mais justos e mais humanos.
O proliferação das tecnologias modernas de informação, algo que faremos o melhor de nós mesmos para promover, nos dá oportunidades sem precedentes para a realização de liberdades políticas fundamentais, como a liberdade de expressão e reunião. Permite-nos identificar e eliminar focos de corrupção. Dá-nos acesso direto a quase todos eventos. Facilita a troca direta de opiniões e conhecimento entre pessoas ao redor do mundo. A sociedade está se tornando mais aberta e transparente como nunca antes – ainda que a classe dominante não necessariamente deseje isso.
O sistema político da Rússia será também aberto ao máximo, flexível e sofisticada. Será adequado para uma estrutura social multi-dimensional dinâmica, ativa e transparente. Corresponderá a uma política cultural de pessoas confiantes, livres, seguras e com consciência critica. Assim como nos mais democráticos estados, os lideres da luta política serão os partidos parlamentares, que periodicamente se substituirão no poder. Os partidos e coalizões que montarão, escolherão as autoridades executivas federais e regionais (e não vice versa). Eles serão responsáveis pela nomeação de candidatos ao posto de presidente, governadores regionais e autoridades locais. Eles terão uma longa experiência da competição política civilizada: responsável e significativa interação com os eleitores, cooperação inter-partidária e busca de compromissos para resolver agudos problemas sociais. Eles unirão num sistema política todo elemento da sociedade, cidadãos de todas as nacionalidades, os mais diversos grupos de pessoas e territórios da terra Rússa munidos de amplos poderes.
O sistema político será renovado e melhorado através da competição livre de associações políticas abertas. Haverá um consenso entre partidos sobre as linhas estratégias da política externa, estabilidade social, segurança nacional, as bases da ordem constitucional, a proteção da soberania da nação, os direitos e liberdades dos cidadãos, a proteção dos direitos a propriedade, a rejeição aos extremismos, apoio a sociedade civil, todas as formas de auto-organização e auto-gestão. Um consenso similar existe em todas as democracias modernas.
Este ano nós iniciamos o transição rumo à criação deste sistema político. Partidos políticos receberam possibilades adicionais para escolher aqueles que ocupam cargos de liderança nas regiões federais e municipais. Nós liberamos os requerimentos formais para a criação de novos partidos. Nós simplificamos as condições para a nomeação de candidatos para se elegerem ao Duma Estatal. Nós aprovamos uma legislação que garante aos partidos parlamentares o acesso equitativo a mídia pública. E inúmeras outras medidas foram também adotadas.
Nem todos estão satisfeitos com a velicidade de movimento nesta direção. Falam-se sobre a necessidade de acelerar mudanças no sistema político. E às vezes sobre um retorno a “democracia” dos anos 90. Mas é imperdoável uma volta a um estado paralizado. Então eu quero desapontar os adeptos da revolução permanente. Nós não vamos nos apressar. Reformas políticas mal analisadas levaram a trágicas conseqüências inúmeras vezes em nossa história. Elas empurraram a Rússia para a beira da desintegração. Nós não podemos arriscar nossa estabilidade social e ameaçar a segurança de nossos cidadãos seguindo teorias abstratas.
Nós não temos o direito de sacrificar uma vida estável, nem mesmo pelos objectivos mais altos. No seu tempo Confucius disse: “Impaciência em assuntos menores destrói uma grande idéia”. Nós estamos farto disto no passado. Reformas para o povo, não o povo para reforma. Ao mesmo tempo não vou agradar àqueles que estão satisfeitos com o status quo atual. Aqueles que temem e não querem mudanças. Mudanças ocorrerão, mas elas serão graduais, pensados e realizadas passo a passo, mas serão contínuos e consenquentes.
A democracia russa não será uma copia de modelos estrangeiros. A sociedade civil não pode ser comprada com prêmios estrangeiros. A cultura política não pode ser reconfigurada por meio da símples imitação das tradições políticas das sociedades avançadas. O sistema judicial eficiente não pode ser importado. A liberdade não pode ser reproduzida do livro, mesmo que tenha um conteúdo sábio. Óbvio que aprenderemos com outras nações – de suas experiências, seus sucessos e insucessos no desenvolvimento das instituições democráticas. Mas ninguém viverá nossas vidas por nós. Ninguém nos fará livres, bem sucedidos e responsáveis. Somente nossa própria experiência de democracia nos dará o direito de dizer: nós somos livres, nós somos responsáveis, nós somos bem sucedidos.
A democracia necessita de proteção assim como os direitos e liberdades fundamentais de nossos cidadãos. A
proteção antes de mais contra a corrupção que gera arbitrariedade, contra falta de liberdade e injustiça. Nós só
iniciamos o desenvolvimento de tais mecanismos de proteção. Nosso sistema judicial deverá ser um componente central.
Nós temos que criar um moderno e eficiente judiciário, atuando de acordo com uma nova legislação para o sistema
judicial e baseado em princípios legais contemporâneos. Temos que nos livrar do desrespeito pela lei e justiça, o que –
como tenho dito repetidamente - lamentavelmente tornou-se uma tradição triste em nosso país. Mas a formação de um novo
sistema judicial não pode ser alcançado pelos saltos e conpanherismo, ou através de discussões de como o sistema está
apodrecido e assim seria mais fácil criar novo corpo jurídico do que mudá-lo. Não existem juízes inteiramente novos,
assim como não há novos promotores públicos, polícia, pessoal da inteligência, servidores públicos, homens de negócio e
assim por diante. Devemos criar condições de trabalho normais para os representantes dos órgãos de segurança pública, e
livrar-nos dos aventureiros definitivamente. Devemos ensinar aos, representantes dos órgãos de segurança pública
a protegerem e defenderem os direitos e as liberdades. Resolver os confcitos de maneira justa, clara e efetivam dentro
do espaço legal. Precisamos eliminar tentativas de influenciar decisões judiciais de fora da lei. Enfim, o sistema
judicial deverá entender a diferença entre o que significa agir pelo interesse público ou agir egoisticamente em favor
de burocratas e empresários corruptos. Precisamos cultivar o gosto pelo primacia da lei, por agir pela lei, respeitar
os direitos dos outros, incluindo direitos importantes relativos a propriedade. O trabalho das cortes de justiça com
amplo apoio publico é destinado para limpar o país da corrupção. Este é uma tarefa difícil mas é realizavel. Outros
países conseguiram mesmo.
Faremos todo o possível para que os povos do Cáucaso Russo possam ter vidas normais. Programas econômicos e humanitários para o sul do país estarão em breve sendo revistos e concretizados. Vamos fixar claros critérios para apreciar a eficácia das estruturas governamentais que se ocupam com o Cáucaso. Isto se aplica primordialmente aos ministérios federais e regionais e também departamentos responsáveis pelas políticas de produção industrial, finanças, desenvolvimento social, educação e cultura. Ao mesmo tempo, órgãos de segurança pública continuarão a reprimir os grupos de bandidos que procuram, por intimidação e aterrorização, impor suas idéias loucas e regras bárbaras à população de algumas repúblicas do Cáucaso.
Tendências demográficas negativas devem ser diminuídas e interrompidas. Precisamos melhorar a qualidade dos serviços médicos, aumentar natalidade, garantir segurança no trânsito e nos ambientes de trabalho, combater a pandemia do alcoolismo, e desenvolver a cultura física e os esportes para a população. Isto requer abordagem estratégica e tornar estas metas os desafios diários do governo.
Quaisquer que sejam os resultados e efeitos destas transformações, seus fins são em ultima instancia os mesmos: melhorar a qualidade de vida na Rússia. Criando melhores condições, provendo os cidadãos com moradia, emprego, assistência médica, aposentadoria, proteção infanto-juvenil e ajuda para os indivíduos com deficiências – estes são os deveres das autoridades em todos os níveis.
Com freqüência os políticos russos nos lembram que de acordo com a nossa Constituição, a Rússia é um estado social. Isto é verdade, mas não devemos esquecer que o moderno estado social não pode reproduzir o ultrapassado sistema social soviético,não é um distribuidor especial dos bens que caem do céu. É um sistema complexo e equilibrado de incentivos econômicos e garantias sociais, no plano comportamental, ético e legal, um sistema onde a produtividade crucialmente depende da qualidade do trabalho e do nível de treinamento de cada um de nós.
O que quer que seja distribuído à sociedade pelo governo, que seja somente aquilo que é merecido. Viver além de nossas possibilidades e meios é imoral, inconsciente e perigoso. Precisamos fazer nosso sistema econômico mais produtivo para assim ganharmos mais. Não devemos receber só porque em algum momento subiram os preços do petróleo, devemos trabalhar para ganhar.
Nós vamos melhorar a eficiência dos serviços sociais em todas as esferas, prestando atenção especial aos problemas de ajuda médica e material para os veteranos e aposentados.
Em minha opinião, a modernização da democracia russa e a estabilização de uma nova economia somente será possível, se usarmos as fontes intelectuais das sociedades pós- industriais. Devemos fazê-lo sem preconceitos aberta e pragmaticamente. Harmonizar nossas relações com as democracias ocidentais, não se trata de uma questão de gosto, preferências pessoais ou mesmo prerrogativas de determinados grupos políticos. Nossa atual situação financeira doméstica e capacidades tecnológicas ainda não são suficientes para uma melhora da nossa qualidade de vida. Nós necessitamos dinheiro e tecnologia da Europa, America e Ásia. Em contrapartida, estes países precisam das oportunidades que a Rússia oferece. Nós estamos bem interessados na reaproximação e interpenetração de nossas culturas e economias.
É claro que nenhuma relação é livre de contradições. Sempre haverá tópicos em controvérsia, razões para discordar. Mas, ressentimento, arrogância, preconceitos, desconfiança e principalmente hostilidade deverão ser excluídos das relações entre a Rússia e os países democráticos avançados.
Nós temos muitos objectivos em comum, incluindo prioridades absolutas que afetam todos os habitantes da Terra como a não proliferação de armas nucleares e a redução de riscos dos efeitos adversos das mudanças climáticas provocadas pelo Homem.
Nós devemos incentivar o interesse dos parceiros e envolve-los em atividades conjuntas. E se precisarmos nós mesmos de mudar algo para que isso aconteça, abandonar ilusões, então deveríamos fazê-lo. Não estou, é claro, me referindo a concessões políticas unilaterais. Falta de vontade e incompetência não nos trarão nenhum respeito, gratidão ou lucros. Isto já nos ocorreu em nossa história mais recente. Noções ingênuas de um próspero e infalível Ocidente e uma eterna subdesenvolvida Rússia são inaceitáveis, ofensivas e perigosas. Mas não menos perigoso é o caminho da confrontação, auto- isolamento, insultos mútuos e recriminação.
Não é nostalgia que deve definir nossa política externa, mas os objetivos estratégicos a longo prazo com vistas à modernização da Rússia. Junto a tudo isso, a Rússia é de fato uma das economias líderes no mundo, uma potência nuclear e membro permanente no Conselho de Segurança da ONU. Deveria aberta e explicitamente explicar sua posição e defende-la em todos os encontros, sem submeter-se a pressões para conformar-se. E no caso de uma ameaça a nossos interesses, devemos defende-los firmemente. Eu falei sobre estes princípios da nossa política externa em agosto do ano passado.
Junto com este trabalho ativo em nossa frente ocidental, devemos aprofundar nossa cooperação com os países da
Comunidade Econômica da Eurásia, Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) e Comunidade dos Países
Independentes (CIS). Estes são os nossos parceiros mais próximos e estratégicos. Nós compartilhamos as metas de
modernizar nossas economias, garantir a segurança regional e promover uma ordem mundial justa. Nós devemos também
desenvolver cooperação mundial com nossos parceiros na S Organização de Cooperação de Xangai e BRIC (Brasil,
Rússia, India, China).
Como todo grande povo, o povo Russo tem a história brilhante e heróica, respeitada e admirada pelo mundo e ao mesmo tempo uma história controvertida, complexa e ambígua. Nós somos vistos de forma diferente pelas pessoas e países diferentes. E muito ainda está por ser feito para proteger nossa herança histórica de distorções e especulações políticas. Devemos olhar claramente para o nosso passado e ver nossas grandes vitórias, nossos trágicos erros, nossos modelos de atuação e as melhores manifestações de nosso caráter nacional.
Em todo caso, estaremos atentos à nossa história e a respeitaremos. Antes de tudo devemos respeitar o papel de nosso país em manter um mundo equilibrado através de séculos. A Rússia tem - em todos estágios de seu desenvolvimento - buscado alcançar uma ordem mundial mais equilibrada e justa.
Com freqüência a Rússia assumiu a proteção as pequenas nações, que estavam sob ameaça de escravidão ou mesmo aniquilação. Este foi o caso recente quando o regime de Saakashvili lançou um ataque criminoso sobre a Ossétia do Sul. Com freqüência a Rússia tem colocado um fim naqueles aventureiros que tendem a dominação do mundo. A Rússia esteve duas vezes na vanguarda das coalizões mundiais: no século 19 para deter Napoleão e no século 20 para derrotar os Nazistas. Na guerra e na paz, quando uma causa justa necessita uma ação decisiva, nosso povo tem sempre estado presente para ajudar. A Rússia sempre foi um aliado na guerra e um parceiro honesto nas relações diplomáticas e econômicas.
No futuro, a Rússia continuará a ser um ativo e respeitado membro da comunidade internacional das nações livres. Será forte o suficiente para exercer uma significativa influencia na formulação de decisões que tenha implicações globais. Estará apta a prevenir ações unilaterais de qualquer um que deseje prejudicar nossos interesses nacionais ou afetar nossos assuntos internos pela redução de nosso nível de rendimentos ou prejudicar nossa segurança.
Por estas razões, junto com outras nações nós estamos tentando reformar as instituições supra-nacionais políticas e econômicas em todo o mundo. O alvo desta modernização é o desenvolvimento das relações internacionais no interesse do maior numero de povos e nações possíveis. Nós queremos estabelecer regras de cooperação e soluções de disputas, nas quais a prioridade maior seja a aplicação de idéias modernas de igualdade e justiça.
Estas são minhas visões de nosso papel histórico de nosso país e seu futuro. Estas são as minhas respostas a
algumas problemas que afetam a todos nós.
Eu gostaria de convidar todos aqueles que compartilham minhas convicções a cooperar. Gostaria também de convidar a envolverem-se, todos aqueles que não concordam com minhas idéias, mas sinceramente desejam uma mudança para o melhor. Pessoas tentarão interferir em nosso trabalho. Grupos de corruptos influentes e empreendedores preguiçosos estão bem estabelecidos. Eles tem tudo e estão satisfeitos. Eles irão espremer os lucros dos restos da indústria soviética e desperdiçar até o fim as reservas naturais que pertencem a todos nós. Eles não estão criando nada novo, não querem o desenvolvimento e tem medo dele.
Mas o futuro não pertence a eles – o futuro pertence a nós. E nós somos a maioria absoluta. Nós vamos agir paciente e pragmaticamente, consistentemente e de forma equilibrada. E vamos agir agora: agiremos hoje e amanhã.
Nós venceremos a crise, o atraso e a corrupção.
Nós criaremos uma nova Rússia.
Avante Rússia!